Ensino COM distância

Atualizado: Out 13

Embora a potência tecnológica tenha permitido acesso mais dinâmico, econômico e mesmo democrático à educação (sobretudo a de nível superior), a implementação do Ensino à Distância (EAD) trouxe consigo muitas fissuras e lacunas. É inegável observar que muitos dos modelos hoje aplicados tem como sintoma a diminuição de despesa da instituição e como consequência a precarização do ensino.


E isso se dá por milhares de questões. Podem ser trabalhistas, tributárias, ideológicas etc. Mas e se buscarmos atacar este problema na raiz conceitual do Ensino (ou, no limite) Educação à Distância? Mais especificamente, proponho aqui uma reflexão acerca da preposição. Isso mesmo. A preposição tem uma capacidade dizente enorme para a percepção do termo. Por isso que proponho aqui um ensino "com" distância.


Nosso imaginário já se acostumou com a sigla, mediada pela preposição à ou a (considerando que gramaticalmente ambas as formas, com ou sem a crase, são aceitáveis). E isso é uma problemática muito importante de se discutir, ainda mais nesses tempos pândêmicos, com a aceleração e desenvolvimento a toque de caixa, muitas vezes irreflexivo, acerca dos modelos do ensino digital que precisamos para atender a demanda deste momento histórico.


Pois quero dar um passo atrás. Vamos avançar na direção do progresso sem deixar a dimensão da civilização. Ao usar a preposição "à", colocamos a expressão em sentido de oposição: ensino à distância em vez de presencial. Mas não podemos perder a perspectiva de que o ensino é quem dá (ou deveria dar) as cartas. É ensino. Distância ou presença física são apenas condições para que ele aconteça.


Convoquemos a outra preposição: "com". Parece simples, mas esta é uma noção absolutamente vasta e complexa, desde seu sentido grego "syn", do qual deriva. O comunicólogo e poeta Gustavo de Castro traz esta discussão de uma forma muito didática no seu livro Comunicação e Transcendência (Annablume, 2013), à qual ele chama de "princípio com". Em linhas gerais, significa colocar o "com" como fator primordial linguístico para a ação comum ou "com-um".


Encontramos uma ilustração deste princípio no Esferas I: Bolhas, do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Ele relaciona o "com" à origem da nossa vida intrauterina: o cordão umbilical é o nosso primeiro "com". Ou seja, o primeiro elo de ligação entre nós, bebê, e a mãe.


Portanto, quando propomos um ensino com distância, integramos à noção de "EAD" um fator que pode trazer uma potência de conexão muito mais profundo do que a simples perspectiva de ensinar ou aprender por meio virtual. Um "ensino com" ativa a figura do "com-aluno", ou seja, do ser aluno conjuntamente, junto, compartilhadamente.


Convocar a distância para integrar o princípio do relacionamento instituição-aluno ou professor-aluno e aluno-aluno é fundamental para estabelecer um novo parâmetro do ensino "EAD". Não à distância, mas compreendendo que a distância não é valor de separação ou de cisão da presença. Um ensino mediado "com" vai mais longe, pois em sua raiz, no princípio com, propõe uma caminhada compartilhada e horizontalizada no processo de produção, transmissão e troca de conhecimento.


Na perspectiva EAD tradicional, da preposição "à", acabamos por aceitar que o cerne da questão está centrado mais na dimensão tecnológica e no proporcionar a-cesso ao ensino, do que reafirmar o princípio sustentador da educação, que está nos fundamentos relacionais entre professor, tutor, aluno, patrão ou empregado.


O Ensino COM Distânica, deste modo, fortalece no sentido mais básico, e ainda real, das relações. Trocar a preposição não é só uma questão gramatical ou um debate etimológico ou de sintaxe. É acrescentar à equação da crise educacional em que vivemos o fator que sempre fora a mais importante quando nos referimos aos sistemas de ensino: a alteridade. Ou seja, um caminho "com" o outro.


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